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Coluna do Secco – O sonho impossível de construir uma fábrica de automóveis no Brasil


O sonho impossível de construir uma fábrica
de automóveis no Brasil

A grande maioria dos brasileiros não deve saber que, na década de 1960, o empresário Nelson Fernandes idealizou a construção de uma fábrica genuinamente brasileira de automóveis, a IBAP (Indústria Brasileira de Automóveis Presidente). Para realizar o seu sonho, ele adquiriu um terreno em São Bernardo do Campo, construiu galpões e instalou máquinas e equipamentos para a produção dos cinco primeiros protótipos.

Homem de grandes realizações, Nelson não imaginava os obstáculos que enfrentaria para transformar em realidade o sonho de construção de uma fabricante nacional de veículos.

Essa, entre outras histórias, faz parte do livro Sonhador de Utopias, de autoria do próprio Nelson Fernandes, que recebi de Dulce Fagundes, esposa do Tigrão Fagundes, proprietário da antiga empresa Torke, especializada em carros de corrida. O livro tem a dedicatória do autor, Nelson Fernandes, que se revelou em extraordinário empreendedor.

Nelson conta que esse desafio foi o mais difícil de sua vida pelos “adversários” que enfrentou. Não recebeu nenhuma acolhida das autoridades e que, infelizmente, culminou, em 1968, no encerramento do projeto.

Esses personagens eram importantes integrantes do governo federal, diretores das fábricas de veículos já instaladas no País, políticos, partidários e até jornalistas, ansiosos por defender as pessoas que se entusiasmavam com a oportunidade de serem sócias de um grande empreendimento.

Seu projeto recebeu muitas e duras críticas de jornais, revistas e emissoras de rádio, por vender cotas que tornavam os compradores em coproprietários da fábrica.

Segundo Nelson Fernandes, esses adversários eram muito poderosos, inclusive algumas empresas de comunicação, uma dos quais publicou reportagem sobre o projeto do automóvel Democrata com a manchete “Cuidado, este carro não existe”.

Enquanto a IBAP conquistava a venda de novas cotas, ganhava novos desafios e oponentes. No livro, conta que até um dossiê contra ele foi feito pelo ministro do Planejamento. Enquanto o projeto ampliava as adesões, parte da imprensa, políticos, órgãos do governo e representantes da indústria trabalhavam contra.

Entre tantos adversários, recebeu o apoio de três importantes jornalistas especializados em automobilismo, José Luiz Vieira, da revista Automóvel; Victor Gouvêia, editor da revista Auto Esporte e Waldyr Figueiredo, do Jornal do Brasil, todos falecidos. Mas que, a despeito da importância desses profissionais, não foi possível vencer a força contrária.

Com as dificuldades para conseguir realizar o sonho de uma fábrica de automóveis, Nelson Fernandes ainda tentou, em 1968, comprar a Fábrica Nacional de Motores e que chegou a propor o valor de 150 milhões de cruzeiros novos, aproximadamente 45 milhões de dólares, protocolado no Ministério da Indústria e Comércio, no Rio de Janeiro, com prazo de pagamento em sete anos. Esse valor era maior do que o apurado na venda da fábrica da FNM.

Em sua proposta, a IBAP cobriria qualquer outra oferta que fosse superior à dele e justificou que não seria prudente o governo, naquela época, deixar um patrimônio localizado em área de segurança nacional em poder do capital estrangeiro, lembrando um pronunciamento feito pelo deputado, Marcos Kertzmann.

Com a recusa da proposta, Nelson Fernandes confessa ter sido o pior momento de sua vida ver seu grande sonho fracassar pela força de quem poderia ajudá-lo.

Por se encontrar impossibilitado de contar com o apoio de instâncias superiores preocupadas em derrotá-lo, assim como a misteriosa apreensão em alto-mar de um carregamento de componentes para a montagem dos carros, aparentemente premeditada, estava claro que o próprio governo não tinha interesse no seu empreendimento.

Com tantos obstáculos, criados por personagens da mais alta importância do País, decidiu encerrar a sua luta e conta que a ele sobrava apenas fôlego suficiente para sobreviver ao inevitável naufrágio. Como consolo, dedicou-se a outro projeto de êxito, que foi a construção de um cemitério vertical, na cidade de Curitiba.

O luxuoso Democrata, possuía versões com duas ou quatro portas, carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro, motor italiano (o único componente não nacional, fornecido pela empresa italiana Procosautom – Proggetazione Costruzione Auto Motori), com cabeçotes de fluxo cruzado confeccionados em alumínio e montado na traseira, e interior com revestimento de madeira jacarandá.

Das cinco unidades fabricadas, só restaram três, restauradas com peças que haviam sido apreendidas pela Justiça. Um dos exemplares ficou com o próprio Nelson Fernandes e os outros dois com um mecânico e colecionador, e no acervo do Museu do Automóvel que fica na cidade de Canela/RS.

A leitura desse livro me fez sentir na pele a decepção de alguém que, desde muito jovem, com apenas 24 anos, foi um exemplo, para homens e mulheres, de que existem seres com ideias que podem ajudar outras pessoas a terem uma vida social e familiar de melhor qualidade.

Além do cemitério vertical de Curitiba, Nelson Fernandes realizou com sucesso diversos outros projetos. O primeiro deles foi a construção do Acre Clube, no bairro do Tucuruvi, em São Paulo e, depois, de dois hospitais Presidente, um no Tucuruvi e outro na Vila Formosa.

Filho de um construtor de casas e edifícios, Nelson Fernandes era funcionário da Secretaria da Fazenda e costumava reunir-se com alguns amigos na Padaria do Caseiro, no bairro do Tucuruvi, em fins de semana para o café da manhã e um dia apareceu com uma ideia maluca:

“Vamos construir um clube para que o tornemos de nossa propriedade e que outras pessoas também tenham um local agradável para as famílias aqui no bairro?”

O clube seria um recanto para as famílias da região, local para a prática de esportes e um centro de relacionamento, recreação, festas e diversão, além de valorizar o bairro e torná-lo em modelo para outras regiões da cidade.

Antes de lançar a campanha do clube, Nelson Fernandes encontrou um terreno que pertencia a um francês, Jacques Funke, que a despeito da sua incredulidade inicial, foi convencido pela proposta de que devolveria a área se o projeto não desse certo e que ele ficaria com o dinheiro que já tivesse recebido.

A alegria dos moradores da região quando o primeiro empreendimento foi concluído, no dia 13 de junho de 1959, acirrou alguns opositores que Nelson Fernandes, em seu livro, definiu como fariseus, tristes exemplares da espécie humana, dotados de incrível capacidade de prejudicar suas próprias vidas pelo prazer de sufocar a dos outros e que não descansam enquanto não verem suas presas suspirarem.

Apesar de pessoas com esse perfil, a construção do clube foi concluída, hoje é um dos principais da cidade e Nelson Fernandes informou que dos 2.500 títulos de propriedade do clube colocados à venda sobraram os exatos 20% previstos no planejamento.

O programa gerou uma receita aproximada de três milhões de dólares, suficiente à época para programar uma entrega bem maior que a acertada em contrato. E que os primeiros sócios que compraram cédulas por 35 mil cruzeiros em 1958, poderiam vendê-las a 550 mil cruzeiros em 1964, prazo final para a conclusão das obras do clube. E o clube pode ser visitado à Rua Água Comprida, 257, no Jardim França, no Tucuruvi.

O patrimônio implantado no Jardim França foi a semente que fez florescer as duas unidades do Hospital Presidente, outros empreendimentos idealizados por Nelson Fernandes e que valorizaram o terreno e o metro quadrado dos bairros do Tucuruvi, Vila Formosa (segunda unidade) e de outros das proximidades.

O nome do Hospital Presidente foi escolhido como homenagem a Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito presidente da República, que comandou a construção de Brasília e incentivou a economia do País.

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Coluna do Secco – Corvette comemora 70 anos e pode virar uma linha de modelos

Em 17 de janeiro de 1953, em Nova Iorque, a General Motors Corporation promoveu a apresentação do Corvette, primeiro modelo esportivo da linha Chevrolet. Hoje, 70 anos depois e com quase 2 milhões de unidades produzidas, o Corvette pode se tornar, a partir de 2025, uma submarca, com diferentes modelos, além do consagrado esportivo de dois lugares.

Imaginem nos anos 50, no pós-segunda guerra mundial, uma montadora desenvolver um carro diferente dos padrões norte-americanos? Por isso, causou surpresa e também muita emoção ao público, quando começou a ser visto circulando pelas ruas da cidade.

Ousadamente projetado para ser o carro dos sonhos e estabelecer uma nova forma de vida para uma faixa etária entre os jovens próximos de concluir a formação profissional e bem-sucedidos e apreciadores de automóveis ousados, o Corvette foi projetado por Harley Early, chefe de desenhos da General Motors.

A novidade era ser um automóvel de apenas dois lugares, normalmente ocupados pelo proprietário, acompanhado de uma jovem garota e desfrutando da paz com o encerramento da segunda guerra mundial.

O novo carro tinha ainda outras atrações, como as cores externas e internas vivas e alegres, modelo conversível que um simples botão descobria o ambiente interno fazendo o sol e o vento trazerem de volta aos jovens as comemorações que deixaram de existir durante a fase de conflito global.

O carro era equipado com motores de 3,9 litros e de 4,3 litros, que provocavam emocionantes prazeres e demonstravam superioridade sobre os europeus.

Agora, sete décadas depois, o que se especula é que essa decisão marcará uma nova grande e importante mudança na General Motors e está alinhada com o seu objetivo se tornar uma fabricante exclusivamente de veículos elétricos nos próximos anos.

Essa submarca Corvette, segundo a revista norte-americana Car and Driver, a partir de 2025 incluirá um “cupê” de quatro portas e um crossover esportivo de alto desempenho para fazer parceria com o próximo Corvette esportivo elétrico de dois lugares.

E por que a General Motors daria esse passo? Primeiro porque a fabricante já anunciou o final de produção do seu outro esportivo, o Camaro, para janeiro do ano que vem, e segundo porque, em todo o mundo, o Corvette está entre as marcas mais valorizadas e procuradas da indústria automobilística mundial e as pessoas compram um Corvette tanto pelo nome quanto pelo carro em si.

De acordo com a revista norte-americana, os carros esportivos são importantes formadores de imagem para as marcas e se essa boa imagem for estendida para outros segmentos de veículos, podem se transformar em modelos muito lucrativos.

Um exemplo disso aconteceu com a Porsche que, no início dos anos 2000, lançou o SUV Cayenne. O sucesso foi tamanho que várias outras marcas premium e de esportivos lançaram os seus modelos SUV, como a Lamborghini, Maserati, Jaguar e até a Bentley.

Só para conhecimento dos que ainda não eram nascidos (e nem planejados), o sucesso do Corvette foi tamanho nos Estados Unidos que fez a General Motors aprovar a proposta de patrocínio da série de filmes Rota 66, um sucesso cinematográfico que em quase quatro anos exibiu de forma romântica aventuras de dois jovens e a beleza do automóvel em praticamente todo o mundo.

Não conheci carro em minha vida que proporcionasse tanto sucesso cinematográfico.

Aqui no Brasil, apesar de todo esse glamour, o Corvette não se transformou em êxito de vendas. E nem na Argentina.

Nesses dois países, os dois principais mercados da América do Sul, o nome Corvette ficou reconhecido por uma versão V8 de seus motores que foi muito utilizada pelos especialistas em carros de corrida que criaram na Argentina a categoria Carretera, instalando-os em antigos Ford e Chevrolet, e, principalmente no Brasil, onde além das carreteras foram utilizados em uma categoria conhecida como Mecânica Continental, composta pelos monopostos da categoria Grand Prix (antiga Fórmula 1) que aqui existiram, como Ferrari, Alfa Romeo e Maserati que tinham os seus motores substituídos pelo V8 Corvette.

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